o início. a primeira das ilhas do arquipélago.

I L H A

Terra à vista! Estamos a leste com o Oceano Atlântico, mais especificamente a 20º19’09”de latitude sul e 40°20’50” de longitude oeste. Trata-se de uma ilha formada por várias ilhas, mais exatamente trinta e quatro ilhas rodeadas por uma baía. Chama-se Vitória.

Mas o interesse aqui é aportar em uma dessas várias ilhotas. Ela está a norte/noroeste desta ilha maior de demarcações difusas e reconstruídas, com parte do seu arquipélago engolido pelos aterros necessários por conta de uma crescente urbanização e de seu pouco espaço, que é tomado em sua maioria por cadeias montanhosas.

É onde a ilha faz sua curva com o continente, lugar de transição, união entre rio e mar, adjacente à rodovia, com vista para montanhas, que ela se encontra. Sinta a brisa, o cheiro da maresia… e cuidado ao descer, devagar, para sentir o tempo que é próprio desse lugar, pois chegamos à Ilha das Caieiras.

Ilha velha, de origem longínqua, surgiu nos tempos de colonização do Estado, com o donatário da capitania do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho. Ganhou nome Caieiras por conta da produção artesanal de cal de ostras ali instalado no início do século XX. Todos se referiam à ilha como das caieiras, ou seja, aquela ilha que possui caieira ou fábrica de cal[1].

Desde os primórdios, sempre teve a presença dos pescadores em suas terras que se utilizavam do terreno da União para assentamentos. Situada no Bairro São Pedro, a Ilha das Caieiras se caracterizou desde a década de 1970 como uma alternativa habitacional para migrantes pobres que em sua ocupação desordenada em local impróprio para moradia (manguezal), geram até hoje problemas urbanísticos e ecológicos.

Apresentadas até aqui algumas informações sobre a região para que se entenda do que se trata essa viagem, vamos agora adentrar intimamente nesta ilha.

Ilhoa de origem, volto meu olhar para minha terra nativa, intrigada com seus quatro cantos tão distantes um do outro, mesmo sendo apenas uma porção de terra cercada de água por todos os lados.

Ilhas que me são desconhecidas mesmo sendo localizadas em meu próprio mapa. E por conta do vento e das marés sou levada a outros oceanos, a habitar outras ilhas na necessidade de “sair da ilha para ver a ilha, que não vemos se não saímos de nós” (Saramago, 1998, p.41). Mas ilha que sou, ávida por linhas mesmo quebradas, para unir outros pontos também singulares e então compor cruzamentos e entrelinhas para ver então onde as marés me levarão.  Mas elas acabam por me trazer novamente ao lugar de origem.

Instigada pela ausência de ligação entre os que habitam essas várias ilhas em um mesmo território, busco no olhar sobre o outro ilhéu relações de experimentações vestíveis, sobre ele que também sou eu. Trata-se de uma busca por alguma(s) identidade(s) no sentido de combinações que nos habitam. Desejo criar conexões com os fluxos do mundo partindo de singularidades quaisquer, do qualquer um, dessas que se encontra nos mínimos gestos de um homem comum para então (tentar) encontrar um coletivo com novas individuações, num jogo entre as singularidades e o comum.

Aparentemente ilhado em seu cotidiano tão comum e tão distante de uma realidade de velocidades frenéticas, os habitantes da Ilha das Caieiras possuem uma relação entre mar e terra de proximidade invejável em tempos de distâncias. Encontro aqui novas linhas de navegação em minha própria ilha. Em uma ilha formada por ilhas, atenho-me às partes, num olhar de estrangeiro em meu próprio território, que em estabilidade de terras firmes vejo-me em transformação, desestabilizando a proximidade do próximo e afastando o distante, criando memória junto ao outro a partir de potências que nos afetam.

Mas como já disse, trata-se de uma ilha de demarcações borradas pelo tempo, assim como Caieira, João, Maria, José e eu. Moramos em ilhas dentro de nós[2]. Realidades em infindáveis movimentos como as ondas do mar. Ilha plural. Um navegar constante por entre ilhas, mesmo em meio a tantas tormentas, e marés que levam e trazem resquícios de si e do mundo.

Nesse por entre ilhas, escolho vesti-los. Fotografá-los com meu próprio olhar. Passo a fazer parte do dia-a-dia de lá. Lá que é aqui. Tão longe, tão perto. Do outro lado da ilha, neste lugar que tem seu tempo próprio. Numa vida com tempo. Tempo com brisa, com cerveja e varinha de pescar no píer em dia de domingo, tempo com pipa, com fruta-pão, com siri, com peixe, sururu e ostra, tempo com cachorros [muitos] na rua, com cachorro que corre atrás de gato, com bêbado, com mutirão para construir o restaurante do amigo, com meninos que dão mortal de bicicleta na água em um final de tarde, com tempo, tempo de ilha, lá nas Caieiras.

Nesta relação da realidade com o mundo e com o outro, em uma temporalidade regida pela vivência interior de cada um, procuro paisagens sensíveis aos corpos e sua presença no mundo. Vestir mar e terra. Vestir poeticamente a experiência cotidiana em pessoas que compartilham uma rotina diária. Na camiseta, roupa usual, branca pelo contraste com a pele negra – em sua maioria nesta ilhota – e limpa de referências, surge a palavra ILHA, como significado que também se transforma em forma/desenho quando estampada. A linha mapeada da Ilha de Vitória em sua origem emerge também em meio ao branco da camiseta. Assim como essa mesma ilha mapeada, ganhando forma difusa com inúmeras palavras ILHA, sem linhas de contorno demarcando-a. Peça de uso comum entre os moradores do local, a camiseta torna-se rapidamente uma segunda pele. E assim surge o adesivo, para um contato mais direto ainda, me apropriar de corpos, peles, objetos, lugares e demarcar um território transformando a palavra em mapa/tatuagem.

Com a palavra, o desenho: estampa e adesivo; marcas de um território de origem, mas que vestidos por essas pessoas, moradores da Ilha das Caieiras, tornam-se bússolas para o mundo. Desenho-palavra que são linhas de forma que tornam-se ilhalinhas de navegações desconhecidas de si mesmo, mas com desejo de novos horizontes e novos contornos. Registro esse instante.

Procuro a memória de um corpo-ilha pela roupa impregnada de existência pessoal pelo seu uso, tornando-se fragmento de seu mundo cotidiano, suas idéias, valores, heranças genéticas e percepções de seu tempo.

Nas costuras da vida a camiseta-ilha ganha forma e vida quando vestida. A camiseta permite lugar para a flexibilidade em corpos diferenciados. Num cotidiano que se descobre e re-descobre imagens pessoais a cada dia criando sentido para os momentos que passam, em territórios de passagem, em corpo que é expressão, meio e mensagem de si e do mundo. Conexões possíveis promovidas pela roupa e seu processo de singularização, incorporando texturas sensíveis do ser, transformando o indivíduo em um mapa aberto de geografias singulares. Contornos são reelaborados pela roupa que preenche de sentidos espaços relacionais onde o próprio corpo se torna coletivo pelo uso da camiseta, num processo de conhecer-se e conhecer o outro em novos sentidos conjugados por essa membrana sensível que é a roupa, aqui camiseta.

Seu uso atinge com rapidez as camadas dos corpos, que aderem às novas paisagens com naturalidade que impressiona. Deve ser desejo de mundo. Ilhéus do mar, pescadores na vida e no tempo que vêem as duas linhas, a do continente e a do mar, lidam com o desconhecido com naturalidade que comove. As novas formas não o surpreendem tanto, é uma postura outra de ser no mundo.

No uso de uma roupa usual, comum, de formas simples e iguais, procuro através da imagem dessas pessoas em seu cotidiano o lugar de um coletivo que preserve a singularidade. Criar pontes por entre ilhas, traçar novas linhas de navegação, desfazendo limites de tempo e territórios definidos para poder manter-se sempre aberto ao infinito, por todos os lados. Nessa ilha que veste, ilhalinha de frouxas costuras existenciais, sempre prontas a se desfazer para se refazer. Ilha na ilha que é ilha. Ilha somos. Vitórias. Caieiras. Marias. Carlos. Joãos. Felipes. Aparecidas. Eu. Você. Somos na pele. Na identidade. Na geografia. Somos. Ilha.


[1] A fábrica foi responsável pelo grande número de pessoas que para lá se dirigiu no início do século XX. As ostras eram catadas, lavadas e jogadas em um grande forno. Uma camada de lenha, uma camada de ostras. Cada dupla de camadas era separada por chapas de ferro perfuradas para garantir a oxigenação e a queima. Após três dias de fogo, as ostras queimadas eram retiradas ainda quentes e com carrinhos de mão, jogadas sobre um piso liso. Sobre elas era lançada grande quantidade de água. No resfriamento elas eram quebradas com pás, e depois peneiradas. Estava pronta a cal. Em sacas era levada por canoas para o porto de Vitória. Esta atividade durou mais de 40 anos. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_das_Caieiras. acesso em: 02 jun. 2008

[2] Parafraseando Wim Wenders no texto de abertura do filme Notas sobre roupas e cidades (1989) quando diz: “Moramos em cidades que vivem dentro de nós.”

____________ texto e fotos de thais graciotti __________

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